Brazilian Journal of Pain
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Pain education: from the idea to action!

Educação em dor: da ideia à ação!

José Tadeu Tesseroli de Siqueira

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Knowledge acquisition and use have always been challenging to mankind. One day, I received as a gift, “to reflect and to have fun with names and classifications” the book Kant and the Platypus by Humberto Eco. Right from the start, it makes it clear that there is nothing in common between the two characters. The author wants to talk about the act of naming things, which is part of knowledge acquisition. Kant introduced the basis of the empirical concept that goes from the sense to the concept. In turn, the platypus had great conceptual difficulty since it is an obvious mixture of different animals. It took 80 years to be recognized as a mammal. According to the author, the resistance of many scholars was what delayed this recognition. After all, a lot of evidence was required, which is not always easy to obtain. On the other hand, to under- stand, conceptually and in practice, the issue of chronic pain is a challenge for students and educators. Now, just imagine for the patients!

A Brazilian study conducted in 2005 and 2006 asked dental surgeons and doctors who attended Congresses on pain, what they thought about patients with chronic pain. The study showed that most of the professionals graduated more than 10 years ago. However, the training to approach patients with chronic pain was recent. There was also a trend to emphasize the technical background of their own specialty or profession. In addition, the percentage of professionals who considered the professional/patient relationship, the emotional aspects of pain and the patient’s behavior with chronic pain important for the control of the symptom was small. Although the professionals showed an interest in the subject, the results of the study showed a divergence between the clinical approach expressed and the one recommended for the treatment of pain.

A lot has changed over the years, as the regulation regarding the expertise in pain in several health professions. Conferences, like the recent 8th Interdisciplinary Pain Congress (CINDOR), showed that undergraduate, graduate students, researchers of the basic area and professionals from several health areas are interested in knowing, updating and discussing the issue of pain.

The experience of physical pain doesn’t seem something simple to understand in practice, and usually, there is no uniformity on the subject. Likewise, it took many years of research and discussion to reach the current concept of pain that still generates debates. When the theme is “Education in pain”, it seems that there is no disagreement as to its importance and need. The International Association for the Study of Pain (IASP) chose it for its 2018 global year, summarizing in one of its educational brochures: “Much work is still to be done: the appropriate education in pain is essential for all healthcare professionals (and patients), and the multidisciplinary teamwork is critical to the success of pain control. Education in pain should be included for the purpose of competence, in the curricula and examinations of health undergraduate and graduate students and should be incorporated into the continuous education programs”.

It is not easy to turn ideas into productive actions. In Jacob’s fight with an Angel painting, Paul Gauguin expresses the idea of transforming the abstract into reality. From the abstract to the empirical. The abstract immersed in reality. It’s as if the artist answered the philosopher, turning the abstract, the conceptual, into an empirical experience. Coming in the opposite direction, showing the abstract in the reality in which it is imagined. In education, it is really necessary to have an integrated effort among professionals, students, patients, family, and managers.

In a digital, real-time and globalized world, the educational activity may be influenced by the social environment, by the attention or negligence of managers, by the influence of the industries and laboratories, by the resistance to change, and even by the professional’s ethical conduct. This has a global reach, but in poor or developing countries, the vulnerability is higher. The challenge of education is huge. And in a country like ours, in which education is heavily criticized at all levels, including the University, action is necessary. The ideas are already set forth.

But when there is the collective suffering in a country that is writhing among several plans (health, public security, education) and that sees or has in soccer a relief, one wonders what to talk about education when the managers are mistrusted, and the elderly become faithless or indifferent. Thinking about this dilemma, and looking for material for this text, I came across a picture of the residents’ schedule of the Oro- facial Pain Dentistry Division of Hospital das Clínicas of the School of Medicine of the University of São Paulo (HC-FMUSP). The photo drew my attention to the phrase written in bold letters “If I could, I would take the pain, put it in an envelope and return it to the sender”, by the poet Mário Quintana.

Suddenly, in a dentistry team, a profession directed to the instrumental practice that involves diagnosis and therapy, the choice of a poem to be on the cover denotes that the lessons about the patient with pain are working. Also, that message based on the apparent simplicity of daily life, a metaphor that addresses a complex suffering issue, points out that we are learning and teaching about the need and importance of seeing on the individual complaint, the integration of all dimensions of pain.

So, let’s turn the idea of “education in pain” into actions necessary to our reality. And there are many examples of pedagogical experi- ence throughout the country, such as the postgraduate, multidis- ciplinary, residence and specialization courses on pain. Let’s copy them, discuss them, recycle them! It is time to reflect and face the challenge of applying the concept to the clinical practice. And let’s move on, because, without hope, no action gives meaning to life, let alone ideas.

And there is no doubt that the fight against pain brings hope, and perhaps meaning to life!


A aquisição e uso do conhecimento sempre foram desafios para a humanidade. Um dia, recebi de presente, “para refletir e divertir-me sobre nomes e classificações” o livro Kant e o Ornitorrinco de Humberto Eco. Esse, já de início esclarece que não há nada em comum entre os dois personagens. O autor quer é falar sobre o ato de dar nome às coisas, que é parte da obtenção do conhecimento. Kant apresentou as bases do conceito empírico que vai dos sentidos ao conceito. Por sua vez, o Ornitorrinco apresentou grande dificuldade conceitual, pois é uma mistura aparente de animais diferentes. Somente após 80 anos foi reconhecido como mamífero. Segundo o autor, a resistência de muitos dos estudiosos foi o que retardou esse reconhecimento. Afinal, exigiram-se muitas evidências nem sempre fáceis de se obter. Por outro lado, entender conceitualmente e na prática a questão da dor crônica é um desafio para estudantes e educadores. Imagine então para os pacientes! Um estudo brasileiro realizado nos anos de 2005 e 2006 perguntava a cirurgiões-dentistas e médicos que frequentavam congressos de dor, o que pensavam sobre pacientes com dor crônica. O estudo mostrou que a maioria dos profissionais era formada há mais de 10 anos, entre- tanto, o treinamento para a abordagem de pacientes com dor crônica era recente. Também havia a tendência de realçar a formação técnica da própria especialidade ou profissão exercida. Além disso, foi pequeno o percentual de profissionais que considerava a relação profissional/ paciente, os aspectos emocionais da dor e o comportamento do paciente com dor crônica de importância para o controle do sintoma. Embora os profissionais demonstrassem interesse pelo tema, os resultados do estudo mostraram divergência entre a abordagem clínica expressa e a recomendada para o tratamento da dor.

Muita coisa mudou nesses anos, como a regulamentação para especialização em Dor em várias profissões de saúde. Congressos, como o recente VIII Congresso Interdisciplinar de Dor (CINDOR), mostraram que os alunos de graduação, de pós-graduação, os pesquisadores de área básica e os profissionais das diversas áreas da saúde continuam interessados em conhecer, reciclar e discutir a questão da dor.

A experiência de ter dor física não parece algo simples de entender na prática, e nem sempre há uniformidade sobre o tema. Do mesmo modo, foram necessários muitos anos de pesquisas e discussões para se chegar ao conceito atual de dor que ainda gera debates. Quando o tema é “Educação em dor” parece não haver discordância quanto à sua importância e necessidade. A própria Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) escolheu-o para seu ano global de 2018, resumindo em um dos seus folhetos educativos: “Muito trabalho permanece: a apropriada educação em dor é essencial para todos os profissionais de saúde (e para os pacientes), e o trabalho em equipe multidisciplinar é fundamental para o sucesso do controle da dor. A educação em dor deve ser incluída, para fins de competência, nos currículos e exames dos alunos de graduação e pós-graduação em saúde, e ser incorporada aos programas de educação continuada”.

Transformar ideias em ações produtivas não é fácil. No quadro A luta de Jacó com um Anjo, Paul Gauguin expressa a ideia de transformar o abstrato em realidade. Do abstrato ao empírico. O abstrato imerso na realidade. É como se o artista respondesse ao filósofo, transformando o abstrato, o conceitual, na experiência empírica. Vem no sentido inverso, mostrando o abstrato na realidade em que é imaginado. Em edu- cação, precisa-se realmente de esforço integrado de profissionais, dos estudantes, dos pacientes, da família e dos gestores.

Num mundo contemporâneo globalizado, digital, e em tempo real, a ação educativa pode sofrer a influência do meio social em que está, do cuidado ou descaso dos gestores, da influência das indústrias e dos laboratórios, da resistência a mudanças e até da conduta ética dos profissionais. Isso é de alcance global, mas em países pobres ou em desenvolvimento a vulnerabilidade é maior. O desafio da educação é gigantesco. E em um país como o nosso, em que a educação é muito criticada em todos os níveis, incluindo o universitário, é preciso ação. As ideias já estão postas. Mas, quando há o sofrimento coletivo de um país que se contorce adoecido em vários planos (saúde, segurança pública, educação) e que vê ou tem no futebol um alívio, imagina-se o que falar sobre educação quando há descrença nos gestores e os idosos se tornam descrentes ou indiferentes. Refletindo sobre esse dilema, e à procura de material para este texto, encontrei a foto de uma agenda dos residentes de Dor Orofacial da Divisão de Odontologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). A foto chamou a atenção pela frase expressa em letras garrafais “Se eu pudesse eu pegava a dor, colocava dentro de um envelope e devolvia ao remetente”, do poeta Mário Quintana.

De repente, em uma equipe de odontologia, profissão voltada à prática instrumental, que envolve diagnóstico e terapêutica, a escolha de um poema para a capa denota que as lições sobre o paciente com dor estão fazendo efeito. Também aquela mensagem baseada na aparente sim- plicidade do cotidiano, uma metáfora que aborda uma questão complexa de sofrimento, aponta que estamos aprendendo e ensinando sobre a necessidade e importância de ver, na queixa individual, a integração de todas as dimensões da dor.

Então, vamos transformar a ideia da “educação em dor” em ações necessárias à nossa realidade. E existem muitos exemplos de ex- periência pedagógica em todo o país, como os cursos de pós-gra- duação, multidisciplinares, de residência e de especialização em dor. Vamos copiá-los, discuti-los, reciclá-los! É tempo de refletir e enfrentar o desafio de aplicar o conceito à prática clínica. E vamos seguindo, pois sem esperança, não há ação que dê à razão sentido à vida, e muito menos ideias.

E o combate à dor, sem dúvida, dá esperança, e talvez sentido à vida!


1 Eco H. Kant e o ornitorrinco. Rio de Janeiro: Record; 1998. 

2 Bérzin MG, Siqueira JT. Study on the training of Brazilian dentists and physicians who treat patients with chronic pain. Braz J Oral Sci. 2009;8(1):44-9. 

3 Federal Council of Medicine. The doctor and his work: methodological aspects and results of Brazil. Brasilia: Federal Council of Medicine; 2004.

4 Loeser J. Pain, suffering and the brain: a narrative of meanings. In: Loeser JD, Carr DB, Morris D (eds). Narrative, Pain and Suffering. Seattle: IASP Press; 2005. 

5 Siqueira JTT. Dores Mudas. As Estranhas Dores de Boca. São Paulo: Artes Médicas; 2007. 

6 Ogboli-Nwasor E. Educação e dor nos países de poucos recursos. Fact-sheet No. 8. Global Year of Education and Pain. IASP; 2018.

7 Gauguin P. The vision after the sermon. Galeria Nacional de Arte Moderna da Escócia. 1888. 

8 Quintana M. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; 2005.

9 Sarda Jr JJ. Challenges in pain education in Brazil: where are we going? Br J Pain 2018;1(2):93.

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